Há tempos estava querendo ler algo do Valter Hugo Mãe e devo dizer que foi uma pena ter me demorado tanto a pegar um de seus livros. Primeiro porque a maioria deles foi publicado pela saudosa Cosac Naify e, portanto, tem capa e diagramação maravilhosas e, depois, porque sua escrita é quase uma poesia e eu não me lembro de ter usado tantos post its num livro como em A Máquina de Fazer Espanhóis.
É um livro, de certa forma, bem triste, com uma temática muito singular, mas o autor nos faz refletir o tempo todo ao longo da narrativa, com frases de efeito e passagens incríveis. Não é a toa que o autor português ganhou tantos prêmios e é tão festejado. Antes de falar um pouco sobre a história, vale dizer também que no livro não há quase pontuações, parágrafos, não há letras maiúsculas, travessões... é, de fato, uma escrita bastante peculiar.
É um livro, de certa forma, bem triste, com uma temática muito singular, mas o autor nos faz refletir o tempo todo ao longo da narrativa, com frases de efeito e passagens incríveis. Não é a toa que o autor português ganhou tantos prêmios e é tão festejado. Antes de falar um pouco sobre a história, vale dizer também que no livro não há quase pontuações, parágrafos, não há letras maiúsculas, travessões... é, de fato, uma escrita bastante peculiar.
Pois bem, o nosso protagonista é o Sr. Silva. Logo no início do livro, ele está dentro de um hospital e acaba de perder sua esposa, com quem conviveu durante a vida inteira e ainda era completamente apaixonado. Não bastasse esse baque, sua filha lhe envia a uma casa de repouso, onde deverá passar o resto de sua vida. São duas mudanças completamente bruscas e que irão ditar as páginas seguintes. No local, o Sr. Silva faz amizade com outros senhores e senhoras e descobre que existe amor fora da família, que existem outras pessoas queridas no mundo e algumas delas estão passando pela mesma situação que a sua. Ele não está sozinho no mundo.
E com esse pano de fundo, o leitor vai se deparar com momentos nostálgicos, nos quais o Sr. Silva irá nos contar sobre a sua vida pregressa, tempos difíceis de uma Portugal de Salazar, vai nos contar das suas relações com a família e as dificuldades em perdoar um filho ausente. O protagonista também terá momentos de raiva, de maldades, mas momentos de carinho extremo, afeto, compaixão e cumplicidade, Vamos nos deparar com muitos personagens incríveis e, como eu disse no início do post, passagens de perder o fôlego. Valter Hugo Mãe é um gênio – e olha que esse é o meu primeiro livro dele – ele transforma a espera pela morte em poesia e nos faz compreender uma série de coisas da vida.
Alguns trechos maravilhosos:
"com a morte, também o amor
devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer
sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir, pensamos,
existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia
mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com
piedade."
"afeiçoamo-nos à morte. é como
se fôssemos cotejando a confiança dessa desconhecida, para nos encantarmos,
quem sabe. ou para percebermos como poderemos escapar ainda. coisas diversas e
complementares, porque os nossos sentimentos vão oscilando entre uma
necessidade de ultrapassar o impasse do fim da vida, e o trágico de que isso se
reveste. a coragem tem falhas sérias aqui e acolá. e nós, que não somos de modo
algum feitos de ferro, falhamos talvez demasiado, o que nem por isso nos torna
covardes, apenas os mesmos de sempre. os mesmos vulneráveis e atordoados seres
humanos de sempre. tanta cultura e tanta fartura e ao pé da morte a igualdade
frustrante a mesma ciência. sabemos todos rigorosamente uma ignorância
semelhante. e assim não há quem aponte um caminho mais fácil, mais interessante
das vistas, mais proveitoso, mais acompanhado, um caminho disparatado que é
partir sem na verdade se sair do lugar."
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