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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

UM CONTO POR DIA - AMOR VERDADEIRO

E o conto dessa semana é do gênio Isaac Asimov. Para quem não conhece, o autor costuma escrever sobre ficção científica e é absolutamente aficionado por robôs (o livro "Eu, Robô", que depois virou filme, é dele). Pois bem, nesse conto, conhecemos Joe, um, programa de computador inteligente criado por Milton, um rapaz hiper sagaz, mas que ainda não encontrou o amor verdadeiro. 

E através de Joe, esse programa super complexo e inteligente, que conversa com Milton inclusive, ele vai pedir ajuda para encontrar essa mulher ideal. Só que Joe, nosso narrador-robô, vai apresentar alguns problemas para selecionar essa tal mulher, porque ele é inteligentíssimo, mas não foi programado para esse fim. Pois bem, após fazer a seleção, por características e perfil, ele chega a oito mulheres e as entrevista. Mas, apesar de aparentemente perfeitas e belíssimas, ele não sente atração por nenhuma delas. 

Daí ele percebe que é porque ele mesmo não é atrativo para elas. Assim, o próximo passo é reprogramar Joe para, com as características de Milton, encontrar crushes no sistema, dentro daquele padrão que eles já haviam pré selecionado. Só que depois de muita conversa, Joe, que se mostra muito mais sensato do que seu criador, lhe diz que a aparência é o menos importante diante das afinidades, de modo que a pesquisa tem de ser expandida e não pode ficar só nesse número que haviam chegado antes. Pois bem, depois de muito perrengue, eles encontram a mulher perfeita e uma entrevista é agendada. 

Nesse momento, depois de tanta conversa e tanta convivência, Joe e Milton parecem uma única pessoa, pensam igual, falam igual, têm as mesmas reações... é tudo perfeito. E Milton, em razão de um delito cometido, é preso, de modo que Charity, a garota escolhida, terá de lidar com Joe e não com Milton. E como a aparência não é importante, Joe dirá a ela que ela é seu verdadeiro amor..., tomando o lugar de seu criador. Sinistro, heim???? É o computador driblando o homem, se assemelhando ao homem, substituindo o homem. Achei esse conto um pouco assustador. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

UM CONTO POR SEMANA - O BILHETE PREMIADO

O conto dessa semana é do russo Anton Tchekhov, médico e dramaturgo que nasceu em meados do século XIX e, de acordo com a nossa amiga Wikipédia, é considerado um dos melhores contistas (nem sabia que essa palavra existia) de todos os tempos. Nunca havia lido nada do autor, mas hoje – sim, esse post é quase que “ao vivo” -, estou quebrando esse jejum com um conto curtinho chamado “O Bilhete Premiado”, cujo título é bem próprio para essa época do ano em que todos estão de olho na Mega da Virada!
Um belo dia, na mesa no jantar e na presença de sua esposa, Ivan Dmítritch resolve conferir no jornal o resultado da loteria e ... adivinhem? Sim, ele acertou o resultado! E antes de qualquer coisa, ele e Macha começam a sonhar com o que fazer com a grana, viagens, imóveis, uma vida inteira nova à disposição do casal. E ficam horas divagando, pensando em uma vida sem necessidade de trabalhar, curtindo o tempo livre, o ócio... Ah, que maravilha!

Só que nesse mesmo momento, Ivan começa a imaginar se sua esposa se encaixa nessa nova vida perfeita que ele imagina para si. E começou a reparar melhor em Macha e analisar que ela ficara velha e descuidada, enquanto ele ainda se via jovem e muito saudável, pronto para uma vida nova ao lado de alguém mais sofisticada. E pensou também na família aparecendo em sua casa para pedir favores e dinheiro emprestado... ora, seria um grande tormento!

Até que ele apurou que o número do jornal conferia apenas parcialmente com o do seu bilhete e todo aquele sentimento, aquele sonho, esperança, ódio da esposa e dos parentes, na mesma hora se dissiparam. Mas tais questões deram lugar à repulsa de suas vidas e do lugar onde moravam. Aquele lugar e aquela vida que pareciam tão perfeitos e tão bem arejados antes da nota do bilhete no jornal, de repente passaram a não ser mais toleráveis. 
Moral da história: não se mexe em time que está ganhando!

sábado, 17 de dezembro de 2016

UM CONTO POR SEMANA - À PROCURA DE UMA DIGNIDADE

"Na certa, cada um tinha o próprio caminho a percorrer interminavelmente, fazendo isto parte do destino, no qual ela não sabia se acreditava ou não."

Nossa, que conto mais sufocante!!!! Que desesperador!!!! Clarice Lispector leva o leitor a sentir exatamente a mesma angústia da personagem principal, a Sra. Jorge B. Xavier, uma senhora na casa dos 70 anos que, de repente, se enxerga velha e senil e lhe bate o desespero de quem não estava preparada para isso e simplesmente não sabe o que fazer com relação a essa nova perspectiva. É como se ela fosse dormir com 30 e acordasse de repente com 70 anos, desconhecendo tal condição e não sabendo como lidar com ela! A autora se utiliza de uma situação absolutamente cotidiana e inevitável, mas a disseca de uma forma que chega a assustar!!!
O conto começa com a Sra. Xavier entrando no Estádio do Maracanã, através de uma fresta, em dia sem jogo, com o local completamente deserto. E numa sequencia de ações realmente asfixiantes, ela vai entrando cada vez mais e mais no local, se perdendo pelos corredores que, pelo menos à minha impressão, vão ficando cada vez mais estreitos e de difícil acesso. Até que ela se depara com uma pessoa, mas é como se as palavras lhe fugissem e, de repente, ela não soubesse mais o que estava fazendo ali e para onde queria ir.

E mesmo quando consegue se livrar daquela situação e sair para a rua, não consegue informar ao taxista o nome do local onde gostaria de ir e o motorista não conhece a região, e fica girando em círculos e o leitor sente mais uma vez aquele sufoco, a mesma angústia experimentada pela protagonista. É como se a vida dela houvesse entrado num looping e ela simplesmente não pudesse se desvencilhar daquilo. Não vou contar o final, mas a coisa não melhora, juro!!!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

UM CONTO POR SEMANA - A ATRIZ

Conto gracinha de Oscar Wilde, no qual eu tenho certeza de que muitas pessoas vão se identificar. O nome do conto poderia ser “O amor é cego” e é mesmo. É engraçado isso porque eu namorei durante 8 anos (dois caras diferentes, mas praticamente emendei uma namoro no outro) e na época eu era realmente feliz. Mas hoje, quando olho para traz, vejo que eu abri mão completamente de quem eu sou para me tornar uma namorada e eu acho isso extremamente imprudente. Acho realmente que quando se está em uma relação, temos que abrir mão de algumas coisas e sermos até mesmo mais indulgentes em prol de um bem maior, mas sem nunca abrirmos mão de quem realmente somos, daquilo que queremos, que sentimos... enfim, nunca deixar de sermos nós mesmos. 

E nesse conto, Oscar Wilde vai nos apresentar a uma atriz, muito famosa, conhecida e que realmente ama os palcos, ama o que faz. Só que um dia, ela conhece o amor de sua vida e tudo aquilo que a consagrou, que a fez tão feliz, se torna absolutamente pequeno diante de tamanha paixão. E o homem por quem ela se apaixona lhe faz o derradeiro pedido: pede que ela escolha entre ele e os palcos, pois o ciúme não permite que ele a deixe exercer a atividade de atriz. Cega de amor, de pronto ela atende ao pedido de seu amante.
Só que aquele amor avassalador que eles experimentaram naquele momento, com o passar do tempo vai diminuindo e a atriz vai percebendo que ele não é mais suficiente a preencher a sua vida. E justo nesse momento, ela recebe um convite de um diretor de teatro para encenar uma peça, cuja temática é exatamente a história de sua vida. E com a encenação, ela novamente se consagra diante de seu público, e percebe que apenas ela é dona de sua própria vida. Esse conto poderia ser um manifesto feminista!!! 

domingo, 4 de dezembro de 2016

UM CONTO POR SEMANA - H.P. LOVECRAFT - O CHAMADO DE CTHULHU

Antes desse conto eu li Virgínia Woolf - Um Diálogo no Monte Pentélico - mas achei que não valia a pena falar sobre por aqui porque é um conto curtíssimo e sobre reflexão mesmo. Não há uma história propriamente dita. Já o conto do post de hoje, que é até que grandinho e dividido em partes, nos leva aos mistérios deixados pelo Professor Angell a seu sobrinho neto, responsável por seu inventário. O conto começa com o narrador se deparando com uma caixa de argila misteriosa encontrada nas coisas de seu tio, a qual continha desenhos e escrita rudimentares. E junto a tal caixa, havia recortes de jornal, com o título CULTO DE CTHULHU, e relatos de sonhos e surtos de alucinações coletivas. 

Um desses recortes trazia a explicação para a caixa. Certo dia, um jovem chamado Henry Anthony Wilcox visitou o professor, presenteando-o com tal caixa, ainda fresca, dizendo tê-la feito após um sonho e que não fazia ideia do que significava. O jovem teve esse tipo de sonho durante um tempo, que parecia remetê-lo a momentos passados, e a única palavra que se repetia era "cthulhu". E o mais curioso é que, durante esse mesmo espaço de tempo, houve relatos de outras pessoas distintas, de países diferentes, que tiveram o mesmo tipo de sonho. 

Pois bem. No capítulo seguinte, nos deparamos com uma conferencia entre estudiosos realizada em 1908, na qual um policial trouxe à baila um objeto demoníaco encontrado em um ritual vudu. A descrição do objeto é muito semelhante à imagem que Wilcox tem em seu sonho. O Professor Angell estava presente no congresso e ele menciona que um outro estudioso cogitou tratar-se de uma imagem de adoração muito antiga, que remonta aos esquimós, adoradores do demônio, mas que possuía seguidores por todo o mundo. E o policial descreve - é a parte mais aterrorizante do conto - o ritual de adoração a essa figura... terrível!! Os adoradores que foram presos, contaram que a religião é muito antiga, que o tal deus voltará e que o ritual os prepara para recebê-lo.

"A humanidade não estava de forma alguma sozinha entre os seres conscientes da terra, pois formas saíam das trevas para visitar os poucos fiéis. Mas esses não eram os Grandes Antigos. Nenhum homem jamais vira os Antigos. O ídolo esculpido representava o grande Cthulhu, mas ninguém poderia dizer se os outros eram ou não exatamente como ele. Ninguém era capaz hoje em dia de ler a antiga escrita, porém as coisas eram transmitidas por tradição oral. O cântico ritual não era o segredo – este nunca era falado em voz alta, apenas sussurrado. O cântico significava apenas isto: “Na sua casa em R’lyeh, Cthulhu morto espera sonhando”.

E os Grandes Antigos, que são figuras mitológicas que viveram antes dos homens e não são feitas de matéria, esperam em seus túmulos o alinhamento dos astros e a chamada de Cthulhu para retornarem. E invadem e manipulam as mentes dos mais sensíveis durante o sono. 

Pois bem, na última parte do conto, o narrador, que estava interessadíssimo em dar continuidade aos estudos do tio, se depara com um recorte de jornal de Sidnei. Nele, um navio retorna para terra apenas com um dos tripulantes vivo, muito desorientado, e outro morto. Todo o resto desaparecido. Ele conta que foram abordados por um navio pirata, com mestiços e pessoas estranhas, que em determinado momento se deram numa ilha - que não está no mapa - onde parte da tripulação morreu de causas misteriosas. Junto ao sobrevivente, adivinhem.... foi encontrada a mesma tal estátua assustadora!! E piora! Isso tudo aconteceu na mesma época dos sonhos do Wilcox.

Sinistro, heim??? Esse conto é um clássico. Amo muito!

"Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a negros mares de infinito, e não está escrito pela Providência que devemos viajar longe. As ciências, cada uma progredindo em sua própria direção, têm até agora nos causado pouco dano; mas um dia a junção do conhecimento dissociado abrirá visões tão terríveis da realidade e de nossa apavorante situação nela, que provavelmente ficaremos loucos por causa dessa revelação ou fugiremos dessa luz mortal rumo à paz e à segurança de uma nova Idade das Trevas."

sábado, 26 de novembro de 2016

UM CONTO POR SEMANA - LORD BYRON - O ENTERRO

Mais um conto e de outro autor por quem sou apaixonada. Pra quem não sabe, ele não só era um gênio, como também tinha amigos gênios, como a Mary Shelley de Frankenstein! Imaginem como deveria ser macabra essa turminha, rs! Byron nasceu no final do século XVII, era filho de um barão e o precursor do estilo romântico europeu. Atenção, a resenha contém spoillers. 



Pois bem. Nesse conto, o narrador nos apresenta Darvell, um fulano abastado, viajado, mas muito reservado, distante, esquisito de uma forma geral. E esse cara viaja com o narrador pela Europa, pelo leste e pelo sul. Só que no decorrer dessa trip, ele vai definhando, demonstrando um desgaste físico sem tamanho, ainda que não apresente qualquer sintoma de alguma doença conhecida. Até que num determinado momento, eles chegam a um cemitério turco antigo e Darvell, muito debilitado, explica ao amigo que aquele é seu destino, e que irá morrer. Mas antes, faz um pedido muito estranho: que o amigo oculte sua morte. E o pedido fica ainda mais bizarro depois disso:

—No nono dia do mês — continuou—, precisamente ao meio-dia (o mês que você gostar, porém o dia deve ser esse) você deverá arrojar este anel às fontes de água salgada que alimentam a baia de Eleusis. No dia seguinte, à mesma hora, deverá dirigir-se às ruínas do templo de Ceres e esperar uma hora…

E logo em seguida, Darvell morre. Aí, adivinhe só.... Byron não terminou esse conto, rs!!!!! O que eu acho mais incrível é que ele realmente me parece terminado, porque acho que esse suspense, essa magia em torno dessa personagem misteriosa é a cara de Lord Byron e é tudo isso que torna esse conto incrível, mesmo que não saibamos as razões da personagem. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

UM CONTO POR SEMANA - EDGAR ALLAN POE - O BARRIL DE AMONTILLADO

Eu amo Poe, é um dos meus autores favoritos, daqueles que têm a capacidade de te deixar com o cabelo em pé em um simples conto de pouco mais do que 5 folhas. Como não podia deixar de ser, ele vem inaugurar essa nova série de posts aqui no blog, que faz companhia às resenhas de livros. E como são contos e eles são sempre bem curtos, já aviso que não vou conseguir fazer uma resenha sem spoiller.  No mais, vou tentar ser sucinta.

Esse conto fala sobre vingança, e nos ensina que para que ela surta efeito de fato, devemos ter paciência, planejamento e jamais deixar a pessoa desconfiar que algo está errado. Aqui, o narrador está cansado das injúrias e do nariz empinado de Fortunato, e no anseio de lhe dar uma lição, utiliza-se do próprio ego de seu desafeto. O que ele faz é solicitar que o seu opositor lhe acompanhe a uma cripta onde, supostamente, há um carregamento de vinho Amontillado, com o escopo de analisar a sua autenticidade. E Fortunato vai avançando na cripta, e gabando-se muito de seu conhecimento e de ser o único apto ao trabalho. E não obstante o narrador lhe conceda diversas oportunidades de desistir e voltar, seu orgulho não permite. E ao final, Fortunato acaba "emparedado" na cripta.